domingo, 12 de março de 2023

Conversas imaginárias com meu pai: cenário

 Conversas imaginárias com meu pai: cenário



O dia em que meu pai levantou uma questão de ordem, ou seja, para prosseguir o debate era necessário antes tentar definir alguns conceitos.


“O que temos para hoje, meu filho”, já foi meu pai indagando tão logo me avistou. “Fome e garganta seca”, respondi de pronto. “Para a garganta tenho um remédio de primeira, a fome pode esperar”, respondeu meu pai. Entendi a sutileza nas entrelinhas. Servi dois martelinhos com aquela pinga que ele ganhou do Papaca. Estava então montado o cenário para nossas conversas.


“Para hoje, meu filho, você tem fome de quê?”.  “Para hoje, meu pai, tenho fome de… justiça social”. Ele então olhou demoradamente para a janela entreaberta. De onde estávamos, com a claridade que vinha da rua, era possível apreciar a beleza dos pessegueiros em flor. Uma imagem simbólica que jaz gravada nos lugares mais belos de minha memória.


“Mas depende do conceito de justiça, disse ele, pois para aquele antigo filósofo grego, um tal de Trasímaco*, justiça nada mais é do que a vontade do mais forte”.


Percebi que a conversa caminhava para um terreno abstrato, de novo, e prometia ser longa, então me ocorreu uma ideia: “posso servir mais 2 pila dessa sua pinga?, tá muito boa”, perguntei.



Final de outono, pessegueiros formando flores, Urubici, 8 de maio de 2020.


Charles



Fonte: 


Trasímaco


https://pt.wikipedia.org/wiki/Tras%C3%ADmaco


Conversas imaginárias com meu pai: querido diário

 Conversas imaginárias com meu pai: querido diário



O dia em que meu pai acessou o meu diário imaginário. Ora, supunha que isso seria impossível, tal diário é ultrassecreto e nem existe fisicamente.


Amanhecia mais um dia. Era preciso decidir se naquele dia iria olhar a parte vazia ou a parte cheia do copo. É uma escolha. Como já disse alguém, somos livres para fazer nossas escolhas, mas prisioneiros de suas consequências.  


Ernest Hemingway já disse que a companhia com quem você está numa trincheira é mais importante do que a própria guerra. Mil interpretações serão possíveis, querido diário. Na hora que você mais precisa, aí que você conhecerá verdadeiramente sua companhia na trincheira. 


13/06/2020 - ainda falta a razão de ser


O dia em que o pai acessou o meu diário imaginário. Sobre a finitude, “mas não me venham com gracinhas”.


Era uma noite de lua cheia. Havia saído da casa do pai e algo me deixou preocupado. A minha preocupação era com a finitude. Eu percebi que o pai apresentou algumas falhas de memória, percebi que estava se desligando perigosamente das coisas mundanas. 


Ernest Hemingway já disse que a companhia com quem você está numa trincheira é mais importante do que a própria guerra. Nessa fase da vida dele, a companhia realmente importava, ele estava se despedindo dela.


(i) Sobre a finitude, o melhor caminho é conversar. 




(Pai) Eu reconheço a conversa de vocês, me sinto mal-e-mal vivo, por isso vou fazer um pedido para você, meu filho. Escreva em minha lápide o seguinte epitáfio: “Para este frio não há cobertor”. Eu sei o autor dessa frase, e você?


“Não sei como o senhor acessou meu diário imaginário, mas prometo cumprir seu pedido. É o tipo de promessa que, se eu não cumprir, o senhor não poderá me cobrar”. “Muito engraçado, mas lembre que eu estarei mal-e-mal morto. De fato, a morte a todos iguala. Tão logo os sinais vitais desligam, o primeiro verme começa invadir nosso corpo sem vida. E logo tudo isso que somos não passará de apenas um punhado de pó. A morte é uma condição da existência. Se a morte a todos iguala  e sobre ela nada podemos fazer, mas durante a vida é a desigualdade que está naturalizada. Essa desigualdade é uma construção social, e como tal pode ser desconstruída. Sobre essa, sim, podemos fazer alguma coisa”.



Olhei mais uma vez para o céu. Percebi que ao lado daquela caprichosa lua cheia havia um ponto luminoso. Não é uma estrela, como possa parecer, é Júpiter, um planeta. A diferença entre uma estrela e um planeta é que a primeira é cintilante. Isso significa que quando uma pessoa morre e vira estrela ela fica cintilante lá no céu?

Quietos, agora preciso dormir.


Conversas imaginárias com meu pai: o caminho da aprendizagem

 Conversas imaginárias com meu pai


Um pequeno retângulo verde para dividir as seções do documento

O caminho da aprendizagem

Um pequeno retângulo verde para dividir as seções do documento


Lembro-me que trabalhava na oficina de chapeação do Hélio, meu cunhado.  Devia estar entre 16 ou 17 anos de idade, por aí.

Um pequeno retângulo verde para dividir as seções do documento


“Conte-me sobre seu trabalho”, perguntou meu pai. “Estou lá trabalhando na oficina de chapeação do Crespo, aprendendo a fazer as coisas. Eu gosto mesmo é de pintar, mas até agora ele só me colocou a pintar o fundo, eu queria mesmo era pintar a tinta definitiva, mas essa atividade é só para ele ou para o sócio dele”. “O que é esse fundo”, perguntou. “É uma base de tinta,  uma pré-pintura, que, depois de aplicado, a gente ainda lixa e repara os escorridos e prepara para a tinta definitiva”, disse.

“Filho, você precisa ter calma. Pelo que entendi, esse fundo é uma aplicação de tinta preparativa para a pintura definitiva, que se escorrer ainda pode ser lixado. Na tinta definitiva não tem essa possibilidade, não é verdade? Certamente seu patrão viu que você ainda está aprendendo, e o fundo é uma boa prática. Esse é o caminho da aprendizagem”. “Verdade, meu pai, de fato, não me sinto pronto para essa tarefa”.  “Apto, filho, apto para a pintura, pois pronto nem você e nem ninguém nunca fica. Pronto é um estado de perfeição inatingível. Sempre podemos melhorar em alguma coisa. Essa pintura de fundo é uma metáfora da aprendizagem”.  Dito isso, mudou completamente de assunto e falou: “Você precisa pesquisar sobre os anéis de Saturno”.  Então, abri os olhos, era mais uma conversa imaginária com o pai.

(Isabel, quer uma carona para os anéis de Saturno?)


De um ponto minúsculo do Universo, outono se despedindo, inverno se aproximando,  saindo com a Clau para uma longa caminhada, em 20 de junho de 2020.





Conversas imaginárias com meu pai: comunismo

 Conversas imaginárias com meu pai: comunismo



Correm os dias sempre iguais, embora sempre acreditamos que “amanhã será um outro dia”. É talvez uma espécie de vacina para continuarmos andando. 


Estava ali falando sozinho sobre questões filosóficas, as coisas práticas podem esperar, embora essa ordem das coisas traga alguns inconvenientes no dia a dia. Como quando coloquei sem perceber na geladeira… deixe pra lá.


Eureka! Tentava controlar a ansiedade na espera de que a noite logo chegasse, queria passar para o meu pai, de primeira mão, uma ideia que me ocorreu para resolver o caso da energia naquele nosso plano das viagens intergalácticas, o qual estava comprometido em razão de um fator: energia.


Em traços resumidos, seria o caso de mapear os asteroides que circulam em caminho elíptico no universo, pegar carona num deles, saltar para outro quando se aproximar do primeiro, de modo a andar em velocidades altíssimas, sem gastar energia(!), e ainda retardar o envelhecimento, já que a passagem do tempo é infinitamente menor em velocidades elevadas. Queria só ver a reação do meu pai quando lhe adiantasse tal plano!


“Que ventos o trazem aqui, filho”, exclamou meu pai, quando finalmente cheguei em sua casa naquela noite estrelada. “Ventos?, no espaço profundo não existe vento, meu pai!. “A la pucha!, volte já pra Terra, filho!, que história é essa de que o governo combate o comunismo? O que é ser comunista?”  Saberia me dizer?”.


“Ah, essa história de combate ao comunismo… Bem, meu pai, se defender a sustentabilidade do planeta é ser comunista, se lutar pela redução das desigualdades sociais é ser comunista, se lutar pela inclusão das minorias discriminadas e defender os direitos humanos é ser comunista, então eu também sou comunista!”.


Meu pai olhou para mim e disse o seguinte: “sendo assim, eu também sou comunista. As palavras importam e ajustam seu significado de acordo com os tempos. Quem um dia disse que “tudo que é sólido se desmancha no ar?”, mas me responda depois, agora eu quero saber sobre esse negócio de não existir vento no universo profundo, você por acaso já esteve lá para saber? Espere, não me responda agora, o jantar está na mesa”.



Dia do trabalhador, Urubici, maio de 2020.


Fonte:

https://exame.abril.com.br/ciencia/asteroide-gigante-vai-passar-perto-da-terra-amanha-29/


Conversas imaginárias com meu pai: a relatividade do tempo

 Conversas imaginárias com meu pai: a relatividade do tempo


Queria que aqueles momentos durassem para sempre, mas sei que isso é desejar o impossível, então que andassem mais devagar, pelo menos. Só que não, aqueles momentos transcorriam como se estivessem fugindo a galope de mim.


31 de maio de 2008, dia em que o pai pronunciou suas últimas palavras, mas não gostaria de agora tocar em tristezas.


***

A noite se aproximava, era um anoitecer diferente. As energias que fizeram de meu pai um octogenário quase eterno, agora, aos poucos, iam lhe abandonando de mansinho. Meu Pai estava cambaleante, via-se a peleja da vida contra a morte, em alguns momentos até parecia que sobreviveria. Após um longo silêncio, perguntei-lhe se por acaso não queria ouvir alguma música, alguma daquelas suas preferidas que tínhamos ouvido no dia anterior, entre elas, Dio Come Ti Amo e Esquilador, sobre esta última, comentou na ocasião que, quando moço, gostava de tocar em seu violão. "Não, respondeu (com o fio de voz que lhe restava), vocês são a melhor música". Naquela noite, Marilu e eu tivemos uma marcante conversa com nosso pai.


***


Lá fora, a dança de uma folha de outono em direção ao chão. No galho de outra árvore, uma flor rompe a película e se mostra ao mundo. A vida segue.


"Teria alguma recomendação, alguma coisa, para me dizer, meu pai?", perguntei. "Tenho, sim. Procure não deixar em segundo plano as coisas que julga importantes". "Alguma em especial?", perguntei. "Comece pela mais importante, que é praticar gentilezas. Um simples ato seu pode ser a melhor música para o outro".


Um sábado de sol, uma parte da natureza se prepara para hibernar, outra parte, desafiando os rigores da estação,  se prepara para florir, Urubici, 30 de maio de 2020.



Charles 



Em tempo: Saindo para caminhar com minha esposa. Se tudo ocorrer como planejado, devemos partir da Serra do Corvo Branco até Aiurê, 28km, ida e volta.






Conversas imaginárias com meu pai: lavoura de arroz

 Conversas imaginárias com meu pai: lavoura de arroz



O dia em que meu pai discorreu sobre o fator experiência. 


Não sei ao certo de onde meu pai tirava suas ideias práticas. Essa tarefa vou deixar para meus irmãos: os mais novos têm a memória mais fresca, os mais velhos têm guardadas remotas lembranças. 


O fato é que houve um tempo em que o pai cultivava uma lavoura de arroz irrigado na comunidade de Marmeleiro, em São José do Ouro. O cultivo de arroz irrigado requer o domínio de algumas técnicas. Do contrário, demanda muito trabalho e a produção é um fracasso. A principal técnica é aproveitar o desnível do solo em favor do processo de irrigação. Ele soube implantar um sistema de irrigação que acabou dando muito certo, e fez daquilo, por certo tempo,  um meio de subsistência à sua família.


Ele certamente não tirou essas ideias do estudo de Guarda-Livros que fez em Passo Fundo, cujo diploma ostentou nas paredes das casas onde morávamos. De modo que tal curso de Guarda-Livros poderia ter sido muito útil na vida dele, menos para ensinar técnicas de cultivo em lavouras de arroz.


“Você está enganado, meu filho. Sua leitura é, digamos, deixe encontrar um termo suave para não melindrar o companheiro de conversas, apressada, para não dizer rasa ou superficial. Extrair o máximo dos mínimos recursos que tinha, enfrentar um lugar tão diferente do meu mundo, entre tantas experiências, durante minha estada em Passo Fundo, naquele tempo, cursando Guarda-Livros, foi uma experiência muito rica que você não faz ideia. Tais experiências que acumulei serviram para tudo que fiz desde então, até para a lavoura de arroz. Poderia ficar aqui discorrendo sobre esse tema 40 dias e quarenta noites, que é mui caro para mim, mas daí seria fazer como você: mudar as coisas de lugar, dizer que repaginou, mas os móveis são sempre os mesmos. Fui claro, meu filho?”. “Sim, muito claro, pai. Agradeço sua franca exposição, mas não precisava desenhar”. 


“Hoje falamos sobre lavoura de arroz, sobre meus estudos em bancos escolares, sobre experiências. Qual a lição, meu filho, que você leva da conversa desta noite?”, perguntou. Ele me tomou de surpresa. “A lição, meu pai, eu começo pegando sua fala inicial, quando o senhor diz: “você está enganado, meu filho”. De fato, a lição que fica é que devo, constantemente, repensar meus conceitos”.


A noite já havia avançado e era costume de meu pai dormir bem cedo. Uma coisa ficou pendente para outras ocasiões: “os móveis são sempre os mesmos”.



Urubici, 27 de maio de 2020.


Charles


Em tempo: Alguém sabe por onde anda o diploma de Guarda-Livros do pai?


Conversas imaginárias com meu pai: sobre a divisão justa

 Conversas imaginárias com meu pai: sobre a divisão justa


Existe a divisão aritmética, aquela em que simplesmente se divide em partes iguais o todo pelas partes envolvidas. Existe a divisão proporcional, aquela em que cada um leva sua parte segundo sua contribuição.  Existe a divisão justa, aquela em que  cada um contribui segundo suas aptidões e recebe segundo suas necessidades.


Então o leão, a onça e a raposa saíram para caçar, em parceria. Terminada a caça,  era chegada a hora da divisão. O leão segurou fortemente a raposa pela pata e a nomeou para efetuar a divisão. A raposa sentiu um calafrio no espinhaço. Esse leão está querendo me jantar, pensou. "Existem várias maneiras de dividir por 3 essa caça. Eu proponho a divisão 14, isto é, em 3 metades. A primeira metade, 50%, vai para o leão;  a segunda metade, 50%, vai para a onça; e a terceira metade, 0%, fica comigo". "Inteligente divisão, raposa", disse o leão.  E então foi aplaudir, largando, por instantes, a pata da raposa. Suficiente para a raposa fugir em disparada.


"Qual a moral dessa história, meu pai?", perguntei. "O critério de divisão é definido pelo lado mais forte, porém revestido de aparência democrática", disse ele. "E pra você, filho?", devolveu. "Pra mim, quando a vida está em risco, o critério de divisão pouco importa", falei. E meu pai: "Precisamos conversar sobre a tal divisão justa…".


Urubici,  25 de maio de 2020


Charles




Inspiração:


https://www.sitededicas.com.br/fabula-o-leao-o-asno-e-a-raposa.htm


Fonte:


https://pt.wikipedia.org/wiki/De_cada_qual%2C_segundo_sua_capacidade%3B_a_cada_qual%2C_segundo_suas_necessidades


Conversas imaginárias com meu pai: a vida não é uma história

 Conversas imaginárias com meu pai: a vida não é uma história


A vida não é uma história.  A vida é um amontoado de fatos que vão se acumulando desordenadamente ao longo do tempo. Não há propriamente um sentido nesse caminhar. 


"Logo partir de você uma abstração dessas. Você que noite sim noite também vem aqui tomar minha pinga, com o singelo pretexto de conversas imaginárias", rebateu meu pai. Ele, telepaticamente, parece que havia acompanhado minhas divagações. 


"História e o revirar esse amontoado de fatos, ligar A com B e com C, de modo a encontrar uma relação de causa e efeito, um nexo causal, e assim procurar dar um sentido. Somos carentes de sentido. Necessitamos de sentido,  como oxigênio,  para continuarmos vivendo", argumentei.


"A vida tem um propósito,  um sentido,  meu filho. Não é  porque você não o encontrou que ele não existe. Continue procurando", me aconselhou.  


Era o meu dia de levar 7 x 1.


Urubici,  25 de maio de 2020.


Charles 


Conversas imaginárias com meu pai: minha experiência pessoal com o tema indigenismo

 Conversas imaginárias com meu pai: minha experiência pessoal com o tema indigenismo


Linha do tempo: quarta-feira,  dia 20 de maio de 2020. Eu enviei a tarefa ao portal da Unisul sobre minha experiência com o tema indigenismo. Sexta-feira,  dia 22 de maio de 2020. O vídeo da reunião de ministros vem a público. Nele um sinistro, digo,  ministro fala que odeia o termo "Povo Indígena ".


Naquela noite, encantado, eu ouvi histórias que meu pai contava sobre povos indígenas. Peguei esse fio e contei ao meu pai que estava fazendo graduação em História, e justamente agora desenvolvia uma tarefa sobre meu contato com povos indígenas. Eu fiz um breve resumo do texto que desenvolvi. Meu pai então me aconselhou a continuar estudando.


Graduação: História 

Unidade de Aprendizagem: Cultura Indígena Brasileira


Sintetize num texto de no máximo 20 linhas sua experiência pessoal com o tema do indigenismo.


Indigenismo: experiência pessoal


Indigenismo é um tema que me toca profundamente. É provável que em meu DNA estejam inscritas origens indígenas. Isso porque sou um brasileiro típico, resultante do processo de miscigenação que formou esta nação. 


Desde há muito tempo mantenho algum contato com povos indígenas, como os Kaingang, cuja pequena comunidade se localiza em Cacique Doble, RS. Também resido atualmente numa cidade que foi outrora palco de outra comunidade indígena, os Xokleng, em Urubici. Diferente de Cacique Doble, onde lá a comunidade indígena tem sua porção de terra para tocar a vida e seguir sua trajetória étnica, aqui em Urubici, SC, tudo que restou dos Xokleng são algumas, hoje denominadas, inscrições rupestres. Nenhuma alma de Xokleng sobreviveu aqui para contar sua história. Sim, eles não foram totalmente dizimados, pois em Ibirama, SC, existe uma comunidade de Xokleng.  Por sinal, nenhuma espécie da cruzada para extinção do povo indígena teria êxito, isso porque, se isso fosse possível, ainda restariam marcas que a violência não consegue apagar: palavras, tradições, costumes, jeito de viver, amor à natureza, espírito comunitário, entre outras facetas que herdamos de maneira silenciosa da civilização indígena. Ou civilização, já problematizando, é um termo que não se aplica ao povo indígena? 


Oportunidade ímpar esta disciplina para mergulhar nesse universo ao mesmo tempo fantástico, instigante e desafiador, que oportuniza o olhar com olhos de historiador para o passado, para o presente e para o futuro dos povos indígenas.


Charles


Urubici,  24 de maio de 2020.


Conversas imaginárias: a lição de meu pai

 Conversas imaginárias: a lição de meu pai


O dia em que meu pai, monossílabo, apenas escutava minhas suposições. No final, o seu silêncio guardava uma profunda lição.


Havia dias que faltava noite para o debate. Uma vez ou outra deixávamos o silêncio falar. Lembro-me de uma noite fria em que degustávamos um vinho e o silêncio. Diz um velho adágio que é feliz aquele que se contenta com o que tem.


Tempos depois que havia me acomodado atrás do fogão, meu pai, saindo de seu universo paralelo, me tirou para dançar. “Qual é o tema de hoje?”, provocou. A companhia, o vinho, o silêncio e agora um tema, a noite conspirava para ficar cada vez mais agradável.


“Um velho filósofo da Antiguidade Clássica* defendia que a virtude está no meio-termo, ou seja, meio-termo é o ponto entre dois extremos no qual não há excesso e nem deficiência. Por exemplo, entre os extremos imprudência e covardia está a coragem como meio-termo. Repensando essa doutrina do meio-termo, poderíamos dizer que meio-termo é a busca do equilíbrio, ou seja, entre o pânico e a euforia, o meio-termo não é a apatia, mas um ponto mediano no qual não se perdeu a capacidade de vibrar e nem se perdeu a capacidade de se indignar”.  Meu pai, que ouvia atentamente, em dado momento falou: “Mas os extremos podem ser manipulados. Pense um pouco…”.


Mudamos para o primeiro assunto, ou seja, voltamos a ficar em silêncio. Mas a observação de meu pai ficou martelando… Precisava encontrar um exemplo sobre manipulação de extremos, mas isso colocaria em xeque a doutrina do meio-termo.


“Meu pai, o meio-termo entre miliciano sanguinário e miliciano bonzinho sempre será um miliciano. Seria isso um caso de manipulação de extremos?”, perguntei.


“Eu sempre incentivei meus filhos a estudar e digo a vocês continuarem estudando enquanto puderem. O estudo tem o dom de transformar as pessoas e as pessoas podem transformar o mundo, como já disse um tal de Paulo Freire. Mas há algo em mim que é inflexível, uma ideia que tenho ou um princípio de vida que sigo”. “E qual é, meu pai?”. “A honestidade, meu filho, para a honestidade não existe meio-termo, não existe interesse maior, não existe circunstância. A honestidade não é negociável”.


Dizem que a circunstância que nos coloca quase em contato com a alma de outra pessoa é o olhar profundo dentro de seus olhos. Eu, naquele mágico instante, pude comprovar essa teoria. Olhei para os olhos de meu pai e vi que o que dizia fazia seus olhos brilharem como nunca. Percebi que o que dizia era mais do que meras divagações sobre assuntos sem importância. Era uma lição para ser guardada, vivida e transmitida.



Margeando o rio Santa Fé, numa caminhada de 15 km com minha esposa, comunidade São José, Urubici, 23 de maio de 2020.





Conversas imaginárias com meu pai: invertida

 Conversas imaginárias com meu pai: invertida 


O dia em que levei uma invertida de meu pai.


Naquele dia, fiquei fazendo coisa nenhuma e acabei chegando um pouco tarde na casa do meu pai. Na verdade, ele já estava indo dormir. 


"Pai, tenho uma coisa para lhe pedir". O pai, com ar de contrariado: "Essa coisa é urgente ou importante?". Eu, já meio receoso: "Não é urgente,  mas é importante".


O pai, direto e reto: "Se fosse realmente importante,  você  teria vindo aqui com tempo. Urgente, você já falou que não é. Logo, volte aqui amanhã. Boa noite". E aí se foi para o quarto.


Que fase, né,  minha filha, pensei.


Um lindo dia de sol, 24 de maio de 2020.


Charles


Conversas imaginárias com meu pai: 21 de abril de 2020

 Conversas imaginárias com meu pai: 21 de abril de 2020



A imaginação é maravilhosa. Se a temos, devemos ao jogo aleatório da evolução das espécies, já disse outro dia um certo Darwin.


Como eu estava dizendo, 21 de abril de 2020 é um dia que ficará marcado na história da humanidade. Nada tem a ver com Tiradentes, embora fosse feriado em sua homenagem.


Cheguei esbaforido na casa de meu pai. A noite já havia caído. Era urgente conversar com ele sobre os fatos ocorridos ao longo do dia de hoje.


“Que ventos o trazem aqui, filho?", já foi logo dizendo.  “Ventos?, tempestade perfeita no coração do capitalismo. Viu o noticiário de hoje?”.  “Não vi, mas sou testemunha que o mundo não acabou, a noite chegou como tem feito a zilhões de anos, e você está aí como testemunha ocular”. “Hoje, meu pai, ocorreu um fato extraordinário, vou lhe contar”.


“Já que insiste, disse ele, então antes sirva 2 martelinhos com aquela pinga ali que ganhei do Papaca, se acomode atrás do fogão e me conte o que está ocorrendo por esse velho mundo”. 


“Ganhou do Papaca?, mas ele nem bebe pinga”. “Por isso mesmo”, disse ele.


“Então, meu pai - comecei o relato - o senhor quer uma versão bem detalhada ou concisa dos fatos?”. “Use o tempo que for necessário, desde que termine antes do jantar, e o jantar está quase sendo servido”.  “Entendi, serei conciso… na medida do possível”.


“O senhor tem ideia do que ocorreu com o preço do petróleo WTI, aquele que é extraído em terra firme nos EUA?”. “Por que teria, se nem carro eu tenho, meu filho. Mas então, sem mais delongas, me conte logo esse fato extraordinário”.


“Imagine o senhor que ao amanhecer do dia de hoje essa commodity era vendida a 30 dólares o barril. Eis que durante o dia o preço começou a cair vertiginosamente. Era como uma queda livre num poço sem fundo”. Nesse ponto do relato meu pai interrompeu para pôr um nível nessa derrocada do preço. “O máximo que pode cair, disse ele, é 100%, ou seja, preço zero e entregue de graça”. 


“Por isso lhe falei que era um fato extraordinário, meu pai. O preço não respeitou essa barreira do zero, ou de graça como diz o senhor. Caiu tanto até chegar aos, pode engolir sua pinga, negativos 200%, ou seja, a certa altura estava sendo vendido a negativos 30 dólares o barril”.


Meu pai então comentou: “seria como eu fosse lá no Rebeschini e comprasse um boné por 30 dólares e eles me entregassem o boné mais trinta dólares. É isso que você está querendo dizer?”. 


“Sim, bem isso, foi um ponto fora da curva, mas foi fato, meu pai”. 


Tomou o último gole daquela pinga, colocou mais lenha no fogo, olhou para mim sem me ver, como quando penetramos em mundos imaginários, e então disse: “seria o começo do fim da Era do petróleo?”.


“É uma boa reflexão, talvez dentro de algo mais complexo, o limiar do pós-capitalismo, quem sabe. Veja que energias renováveis e limpas já  são realidade em muitos…”. Raciocínio interrompido por: “sem mais delongas, meu filho, a boia está na mesa”.



Em tempos de coronavírus, Urubici, 21 de abril de 2020.



Charles




Fonte: 

https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2020/04/petroleo-wti-cai-quase-80-e-vai-a-menos-de-us-5-o-barril.shtml


Conversas imaginárias com meu pai: o homem que calculava

 Conversas imaginárias com meu pai: o homem que calculava


Meu pai enviou um mensageiro à minha procura com a mensagem: 15.11-32. Tomei aquele bilhete e a primeira reação foi: “é verdade esse bilete?”. Pelo formato, vi que não se referia a datas, nem a horas, nem mesmo a coordenadas geográficas. Sim, era uma mensagem cifrada, bem a cara do meu pai. Minha sorte é que bem naquele instante passava por ali um grupo de pessoas entregando esses santinhos com dizeres bíblicos.  Tomei um que uma senhora me ofereceu, e em vez de obrigado eu falei: "15.11-32". E ela: "Lucas, de volta para casa"!* "Obrigado", respondi. Decifrado, meu pai queria falar comigo. 


"O que foi meu pai?", perguntei. Ele estava na horta pendurando um pé de chuchu na cerca. "Foi que eu estou sem saída para uma equação matemática que o 14 levantou, e enquanto não resolver isso não consigo me concentrar na história".


14 é meu irmão João, se fosse entrar na moda dos tempos atuais, seria Zero Oito. E o João Pedro, filho da Jaque e Preto, Zero Dois. Ficaria bem na parada a Scheila: Dez!


Eu era uma espécie de auxiliar de meu pai para questões sem importância. "Qual é a parada?", perguntei.   "Eu estou ocupado aqui trançando este pé de chuchu na cerca, então vou deixar para você resolver a questão.  Demonstre, em termos percentuais, algo dividido em 3 metades". "Deixe ver se entendi, dado A, dividir A em 3 metades, é isso?". "É!", disse ele. 


Claro que meu pai já tinha a solução, ele certamente estava me testando. Dividir algo em 3 metades, essa agora, queria mesmo é acertar as contas com o Zero Oito, digo, 14.


"Meu pai, acompanhe comigo, tome A e divida pela metade, tome uma das metades e volte a dividir pela metade. Então teremos, em termos percentuais, primeira metade, 50%; segunda metade, 25%; terceira metade, os outros 25%, totalizando 100%".


"Agora posso completar a leitura da história do 14", disse meu pai. Bem, se bem o conheço, era um sinal que considerou razoável minha resposta.


Um dia que amanheceu nublado, mas a névoa certamente se dissipará em algum momento. Urubici, 20 de maio de 2020.


Charles



Fonte:

Lucas: 15.11-32

http://www.prazerdapalavra.com.br/mensagens/por-livros-da-biblia/novo-testamento/296-lucas/capitulo-15/282-lucas-1511-32-de-volta-para-casa


Conversas imaginárias com meu pai: probabilidades

 Conversas imaginárias com meu pai: probabilidades



Do nada, uma tese. Olhei para o alto. O sol ainda insistia em permanecer no firmamento visível, mas era questão de minutos para ele ser engolido pela linha do horizonte. Caminhava, quase parando, em direção à casa de meu pai. Do nada me veio à mente o refrão de uma música popular: “Tudo isso acontecendo e eu aqui na praça dando milho aos pombos”. As histórias não são feitas apenas de grandes eventos, mas também de micro histórias como dar “milho aos pombos”. 


Meu pai costumava depositar muito esmero nas coisas que fazia, tanto em projetos de engenharia como em tacadas em mesas de sinuca. Por outro lado, ele também tinha muitos defeitos, mas isso todo mundo tem, vá lá. Lembro de uma micro história dentro de suas façanhas. 


Ele era funcionário de uma cooperativa no ramo de cereais. Além de sua função contratual, meu pai procurava acompanhar com bastante atenção a cadeia de processamento dos produtos que ali eram depositados. Isso lhe rendia algumas inovações. Dedicou algum tempo a um projeto que depois chamou de redemunhador de faíscas. Não sei exatamente a função desse redemunhador, o que sei é que depois desse projeto ser implantado com sucesso as pessoas diziam coisas como: mas como ninguém pensou nisso antes!, mas essa solução para um problema crônico estava na cara e ninguém via, e coisas do gênero.


Isso ocorre (uma tese) porque estamos produzindo no modo automático, e isso nos brutaliza, acabamos perdendo a criatividade. O que nos preocupa no presente é cumprir a meta estabelecida, o cronograma, sem aquele distanciamento e pensamento crítico para mudar o andar da carruagem.


Ainda era dia quando cheguei e meu pai me recebeu assim: “Tenho uma boa e uma má notícia, filho”. Lá vem, pensei. “Manda a boa, então”, falei. “Mas a boa decorre da má”, retrucou. Hoje ele resolveu me tirar, pensei. “E qual é a má?”. “A má é que acabou a pinga e temos de ir lá no bar da Porcina comprar uma garrafa”. Hoje ele tirou para me tirar.  “Sim, mas e a boa?”, “A boa é que, estando lá, certamente vamos jogar uma sinuca… e certamente vou aumentar minha coleção de vitórias sobre você (e então gargalhou)”. Por uma questão de paridade, haverá troco, pensei cá comigo.


Insisti para passarmos num lugar antes. Dali podia se ver a linha do horizonte e o sol já quase submerso. “O que o senhor vê, meu pai”, perguntei, apontando para o horizonte. “Eu vejo um lindo pôr do sol, um pouco mais tarde porque agora é verão e os dias são mais longos”. “Esse pôr do sol que o senhor vê vem ocorrendo a bilhões de anos, bilhões, mas um dia as reações químicas no interior dele vão se exaurir e ele vai se apagar e então não haverá mais esse evento”. “Não querendo interromper, e o que tem a ver o bar da Porcina com esse palavrório?”, perguntou. “Tudo a ver, porque o que eu quis demonstrar (uma tese) é que a ocorrência de eventos passados não implica necessariamente na sua repetição no futuro. Isso tanto vale para o pôr do sol como ganhar ou perder em jogos de sinuca”.


“Eu mereço”, foi a reação de meu pai.



Caminhando com minha esposa, 21 km, entre araucárias, vales e colinas, eventualmente juntando pinhões, Urubici, 17 de maio de 2020.







Conversas imaginárias com meu pai: cenário

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