domingo, 12 de março de 2023

Conversas imaginárias: a lição de meu pai

 Conversas imaginárias: a lição de meu pai


O dia em que meu pai, monossílabo, apenas escutava minhas suposições. No final, o seu silêncio guardava uma profunda lição.


Havia dias que faltava noite para o debate. Uma vez ou outra deixávamos o silêncio falar. Lembro-me de uma noite fria em que degustávamos um vinho e o silêncio. Diz um velho adágio que é feliz aquele que se contenta com o que tem.


Tempos depois que havia me acomodado atrás do fogão, meu pai, saindo de seu universo paralelo, me tirou para dançar. “Qual é o tema de hoje?”, provocou. A companhia, o vinho, o silêncio e agora um tema, a noite conspirava para ficar cada vez mais agradável.


“Um velho filósofo da Antiguidade Clássica* defendia que a virtude está no meio-termo, ou seja, meio-termo é o ponto entre dois extremos no qual não há excesso e nem deficiência. Por exemplo, entre os extremos imprudência e covardia está a coragem como meio-termo. Repensando essa doutrina do meio-termo, poderíamos dizer que meio-termo é a busca do equilíbrio, ou seja, entre o pânico e a euforia, o meio-termo não é a apatia, mas um ponto mediano no qual não se perdeu a capacidade de vibrar e nem se perdeu a capacidade de se indignar”.  Meu pai, que ouvia atentamente, em dado momento falou: “Mas os extremos podem ser manipulados. Pense um pouco…”.


Mudamos para o primeiro assunto, ou seja, voltamos a ficar em silêncio. Mas a observação de meu pai ficou martelando… Precisava encontrar um exemplo sobre manipulação de extremos, mas isso colocaria em xeque a doutrina do meio-termo.


“Meu pai, o meio-termo entre miliciano sanguinário e miliciano bonzinho sempre será um miliciano. Seria isso um caso de manipulação de extremos?”, perguntei.


“Eu sempre incentivei meus filhos a estudar e digo a vocês continuarem estudando enquanto puderem. O estudo tem o dom de transformar as pessoas e as pessoas podem transformar o mundo, como já disse um tal de Paulo Freire. Mas há algo em mim que é inflexível, uma ideia que tenho ou um princípio de vida que sigo”. “E qual é, meu pai?”. “A honestidade, meu filho, para a honestidade não existe meio-termo, não existe interesse maior, não existe circunstância. A honestidade não é negociável”.


Dizem que a circunstância que nos coloca quase em contato com a alma de outra pessoa é o olhar profundo dentro de seus olhos. Eu, naquele mágico instante, pude comprovar essa teoria. Olhei para os olhos de meu pai e vi que o que dizia fazia seus olhos brilharem como nunca. Percebi que o que dizia era mais do que meras divagações sobre assuntos sem importância. Era uma lição para ser guardada, vivida e transmitida.



Margeando o rio Santa Fé, numa caminhada de 15 km com minha esposa, comunidade São José, Urubici, 23 de maio de 2020.





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