domingo, 12 de março de 2023

Conversas imaginárias com meu pai: querido diário

 Conversas imaginárias com meu pai: querido diário



O dia em que meu pai acessou o meu diário imaginário. Ora, supunha que isso seria impossível, tal diário é ultrassecreto e nem existe fisicamente.


Amanhecia mais um dia. Era preciso decidir se naquele dia iria olhar a parte vazia ou a parte cheia do copo. É uma escolha. Como já disse alguém, somos livres para fazer nossas escolhas, mas prisioneiros de suas consequências.  


Ernest Hemingway já disse que a companhia com quem você está numa trincheira é mais importante do que a própria guerra. Mil interpretações serão possíveis, querido diário. Na hora que você mais precisa, aí que você conhecerá verdadeiramente sua companhia na trincheira. 


13/06/2020 - ainda falta a razão de ser


O dia em que o pai acessou o meu diário imaginário. Sobre a finitude, “mas não me venham com gracinhas”.


Era uma noite de lua cheia. Havia saído da casa do pai e algo me deixou preocupado. A minha preocupação era com a finitude. Eu percebi que o pai apresentou algumas falhas de memória, percebi que estava se desligando perigosamente das coisas mundanas. 


Ernest Hemingway já disse que a companhia com quem você está numa trincheira é mais importante do que a própria guerra. Nessa fase da vida dele, a companhia realmente importava, ele estava se despedindo dela.


(i) Sobre a finitude, o melhor caminho é conversar. 




(Pai) Eu reconheço a conversa de vocês, me sinto mal-e-mal vivo, por isso vou fazer um pedido para você, meu filho. Escreva em minha lápide o seguinte epitáfio: “Para este frio não há cobertor”. Eu sei o autor dessa frase, e você?


“Não sei como o senhor acessou meu diário imaginário, mas prometo cumprir seu pedido. É o tipo de promessa que, se eu não cumprir, o senhor não poderá me cobrar”. “Muito engraçado, mas lembre que eu estarei mal-e-mal morto. De fato, a morte a todos iguala. Tão logo os sinais vitais desligam, o primeiro verme começa invadir nosso corpo sem vida. E logo tudo isso que somos não passará de apenas um punhado de pó. A morte é uma condição da existência. Se a morte a todos iguala  e sobre ela nada podemos fazer, mas durante a vida é a desigualdade que está naturalizada. Essa desigualdade é uma construção social, e como tal pode ser desconstruída. Sobre essa, sim, podemos fazer alguma coisa”.



Olhei mais uma vez para o céu. Percebi que ao lado daquela caprichosa lua cheia havia um ponto luminoso. Não é uma estrela, como possa parecer, é Júpiter, um planeta. A diferença entre uma estrela e um planeta é que a primeira é cintilante. Isso significa que quando uma pessoa morre e vira estrela ela fica cintilante lá no céu?

Quietos, agora preciso dormir.


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