Conversas imaginárias com meu pai: lavoura de arroz
O dia em que meu pai discorreu sobre o fator experiência.
Não sei ao certo de onde meu pai tirava suas ideias práticas. Essa tarefa vou deixar para meus irmãos: os mais novos têm a memória mais fresca, os mais velhos têm guardadas remotas lembranças.
O fato é que houve um tempo em que o pai cultivava uma lavoura de arroz irrigado na comunidade de Marmeleiro, em São José do Ouro. O cultivo de arroz irrigado requer o domínio de algumas técnicas. Do contrário, demanda muito trabalho e a produção é um fracasso. A principal técnica é aproveitar o desnível do solo em favor do processo de irrigação. Ele soube implantar um sistema de irrigação que acabou dando muito certo, e fez daquilo, por certo tempo, um meio de subsistência à sua família.
Ele certamente não tirou essas ideias do estudo de Guarda-Livros que fez em Passo Fundo, cujo diploma ostentou nas paredes das casas onde morávamos. De modo que tal curso de Guarda-Livros poderia ter sido muito útil na vida dele, menos para ensinar técnicas de cultivo em lavouras de arroz.
“Você está enganado, meu filho. Sua leitura é, digamos, deixe encontrar um termo suave para não melindrar o companheiro de conversas, apressada, para não dizer rasa ou superficial. Extrair o máximo dos mínimos recursos que tinha, enfrentar um lugar tão diferente do meu mundo, entre tantas experiências, durante minha estada em Passo Fundo, naquele tempo, cursando Guarda-Livros, foi uma experiência muito rica que você não faz ideia. Tais experiências que acumulei serviram para tudo que fiz desde então, até para a lavoura de arroz. Poderia ficar aqui discorrendo sobre esse tema 40 dias e quarenta noites, que é mui caro para mim, mas daí seria fazer como você: mudar as coisas de lugar, dizer que repaginou, mas os móveis são sempre os mesmos. Fui claro, meu filho?”. “Sim, muito claro, pai. Agradeço sua franca exposição, mas não precisava desenhar”.
“Hoje falamos sobre lavoura de arroz, sobre meus estudos em bancos escolares, sobre experiências. Qual a lição, meu filho, que você leva da conversa desta noite?”, perguntou. Ele me tomou de surpresa. “A lição, meu pai, eu começo pegando sua fala inicial, quando o senhor diz: “você está enganado, meu filho”. De fato, a lição que fica é que devo, constantemente, repensar meus conceitos”.
A noite já havia avançado e era costume de meu pai dormir bem cedo. Uma coisa ficou pendente para outras ocasiões: “os móveis são sempre os mesmos”.
Urubici, 27 de maio de 2020.
Charles
Em tempo: Alguém sabe por onde anda o diploma de Guarda-Livros do pai?
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