domingo, 12 de março de 2023

Conversas imaginárias com meu pai: probabilidades

 Conversas imaginárias com meu pai: probabilidades



Do nada, uma tese. Olhei para o alto. O sol ainda insistia em permanecer no firmamento visível, mas era questão de minutos para ele ser engolido pela linha do horizonte. Caminhava, quase parando, em direção à casa de meu pai. Do nada me veio à mente o refrão de uma música popular: “Tudo isso acontecendo e eu aqui na praça dando milho aos pombos”. As histórias não são feitas apenas de grandes eventos, mas também de micro histórias como dar “milho aos pombos”. 


Meu pai costumava depositar muito esmero nas coisas que fazia, tanto em projetos de engenharia como em tacadas em mesas de sinuca. Por outro lado, ele também tinha muitos defeitos, mas isso todo mundo tem, vá lá. Lembro de uma micro história dentro de suas façanhas. 


Ele era funcionário de uma cooperativa no ramo de cereais. Além de sua função contratual, meu pai procurava acompanhar com bastante atenção a cadeia de processamento dos produtos que ali eram depositados. Isso lhe rendia algumas inovações. Dedicou algum tempo a um projeto que depois chamou de redemunhador de faíscas. Não sei exatamente a função desse redemunhador, o que sei é que depois desse projeto ser implantado com sucesso as pessoas diziam coisas como: mas como ninguém pensou nisso antes!, mas essa solução para um problema crônico estava na cara e ninguém via, e coisas do gênero.


Isso ocorre (uma tese) porque estamos produzindo no modo automático, e isso nos brutaliza, acabamos perdendo a criatividade. O que nos preocupa no presente é cumprir a meta estabelecida, o cronograma, sem aquele distanciamento e pensamento crítico para mudar o andar da carruagem.


Ainda era dia quando cheguei e meu pai me recebeu assim: “Tenho uma boa e uma má notícia, filho”. Lá vem, pensei. “Manda a boa, então”, falei. “Mas a boa decorre da má”, retrucou. Hoje ele resolveu me tirar, pensei. “E qual é a má?”. “A má é que acabou a pinga e temos de ir lá no bar da Porcina comprar uma garrafa”. Hoje ele tirou para me tirar.  “Sim, mas e a boa?”, “A boa é que, estando lá, certamente vamos jogar uma sinuca… e certamente vou aumentar minha coleção de vitórias sobre você (e então gargalhou)”. Por uma questão de paridade, haverá troco, pensei cá comigo.


Insisti para passarmos num lugar antes. Dali podia se ver a linha do horizonte e o sol já quase submerso. “O que o senhor vê, meu pai”, perguntei, apontando para o horizonte. “Eu vejo um lindo pôr do sol, um pouco mais tarde porque agora é verão e os dias são mais longos”. “Esse pôr do sol que o senhor vê vem ocorrendo a bilhões de anos, bilhões, mas um dia as reações químicas no interior dele vão se exaurir e ele vai se apagar e então não haverá mais esse evento”. “Não querendo interromper, e o que tem a ver o bar da Porcina com esse palavrório?”, perguntou. “Tudo a ver, porque o que eu quis demonstrar (uma tese) é que a ocorrência de eventos passados não implica necessariamente na sua repetição no futuro. Isso tanto vale para o pôr do sol como ganhar ou perder em jogos de sinuca”.


“Eu mereço”, foi a reação de meu pai.



Caminhando com minha esposa, 21 km, entre araucárias, vales e colinas, eventualmente juntando pinhões, Urubici, 17 de maio de 2020.







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