Conversas imaginárias com meu pai: a relatividade do tempo
Queria que aqueles momentos durassem para sempre, mas sei que isso é desejar o impossível, então que andassem mais devagar, pelo menos. Só que não, aqueles momentos transcorriam como se estivessem fugindo a galope de mim.
31 de maio de 2008, dia em que o pai pronunciou suas últimas palavras, mas não gostaria de agora tocar em tristezas.
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A noite se aproximava, era um anoitecer diferente. As energias que fizeram de meu pai um octogenário quase eterno, agora, aos poucos, iam lhe abandonando de mansinho. Meu Pai estava cambaleante, via-se a peleja da vida contra a morte, em alguns momentos até parecia que sobreviveria. Após um longo silêncio, perguntei-lhe se por acaso não queria ouvir alguma música, alguma daquelas suas preferidas que tínhamos ouvido no dia anterior, entre elas, Dio Come Ti Amo e Esquilador, sobre esta última, comentou na ocasião que, quando moço, gostava de tocar em seu violão. "Não, respondeu (com o fio de voz que lhe restava), vocês são a melhor música". Naquela noite, Marilu e eu tivemos uma marcante conversa com nosso pai.
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Lá fora, a dança de uma folha de outono em direção ao chão. No galho de outra árvore, uma flor rompe a película e se mostra ao mundo. A vida segue.
"Teria alguma recomendação, alguma coisa, para me dizer, meu pai?", perguntei. "Tenho, sim. Procure não deixar em segundo plano as coisas que julga importantes". "Alguma em especial?", perguntei. "Comece pela mais importante, que é praticar gentilezas. Um simples ato seu pode ser a melhor música para o outro".
Um sábado de sol, uma parte da natureza se prepara para hibernar, outra parte, desafiando os rigores da estação, se prepara para florir, Urubici, 30 de maio de 2020.
Charles
Em tempo: Saindo para caminhar com minha esposa. Se tudo ocorrer como planejado, devemos partir da Serra do Corvo Branco até Aiurê, 28km, ida e volta.
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